Pedro Sanches de Lemos

Pedro Sanches de Lemos, foi o primeiro médico de Poços de Caldas.

Casado com Ana Jacinta, conhecida como dona Sinha, teve quatro filhas e um filho, Carlos Sanches de Lemos (Caca).

Pedro foi homenageado pela cidade com um busto numa praça.

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Rui Barbosa e Pedro Sanches de Lemos

"De fato, Pedro Sanches de Lemos, como médico e cientista (numa época em que era normal confundir-se numa só pessoa essas duas funções), foi o grande promotor das águas de Poços de Caldas, desde aí por 1873, quando ele chegava na vila. Nele se fundem praticamente todos os temas que tratei na tese. Por exemplo, ele foi pivô da aliança entre os interesses dos coronéis da terra, os da medicina das águas (a crenologia), e os dos sucessivos governantes de Minas.

Ele mesmo casou-se com uma das filhas do coronel local mais importante, gente da família Junqueira, que lhe deu meios de operar de dentro os passos para as transformações daquele arraial caipira em vila balneária de signo moderno. Esta sua inserção no familismo da terra fez dele um tradutor especial entre dois mundos, o rústico e o civilizado, contemporizando conflitos e diluindo tensões entre os de dentro e os de fora.

Ele foi o grande visionário daquela que um dia figurou entre as cidades balneárias mais importantes e freqüentadas da América do Sul. Depois de formado médico no Rio de Janeiro, resolveu fixar residência em Poços, ali empreender um pioneiro estudo científico das águas e estabelecer clínica regular. Foi também ele que legou à posteridade o primeiro texto historiográfico de maior fôlego e importância sobre Poços de Caldas. Deu corpo a uma linhagem de médicos-políticos e políticos-médicos que marcaria, talvez para sempre, o destino da cidade.

Foi ainda ele, por volta do ano de 1900, quem viajou longamente às estâncias européias para colher notícias e modelos, registrados em livro que publicou em seguida, para que servisse diretamente à edificação de uma vila balneária moderna no Brasil. Sabia, desde então, que era preciso, sob pena de fracasso, aliar o mundanismo das estações ao curismo hidrológico, como quem unisse o espírito de Baco ao de Esculápio. Sabia que para custear os pesados investimentos e manter os serviços de infra-estrutura de uma estação balneária, era preciso contar com o financiamento advindo da moda veranista. Por isso não se opunha à vida frívola que se passava nas temporadas, com seus teatros e suas damas, os footings nos bulevares ou tampouco os rendosos jogos de cassino. Ademais, ele soube mesmo enxergar função terapêutica nessas “distrações”.

Homem de larga influência e erudição, prestou uma importante função de cicerone para visitantes ilustres da incipiente, mas já arrojadamente planejada, vila balnear. Pedro Sanches recebeu, por exemplo, a visita de D. Pedro II, quando da inauguração, em 1886, do ramal de Caldas da estrada de ferro da Mogiana. Recebia freqüentemente em saraus, banquetes e passeios os nomes nacionais mais festejados da época, como Coelho Neto e Olavo Bilac, que se tornaram amigos próximos, habitués de estação e divulgadores da estância entre os altos círculos da elite brasileira de então. O próprio Antonio Candido, cuja família se liga intimamente a Poços de Caldas, e onde tanto tempo ele mesmo viveu, teve a oportunidade de conhecer o tesouro da biblioteca de Pedro Sanches. Assim diz ele, no prefácio do meu livro:

“Nos anos de 1930 ainda pude conhecer a sua biblioteca praticamente intacta. Além dos livros médicos, sobre os quais não saberia opinar, tinha o que havia de melhor no tempo em matéria de filosofia, sociologia, história, literatura. O maior conjunto estava entregue às moscas numa sala da Prefeitura, onde apenas duas pessoas iam de vez em quando: meu colega Spartaco Vizzotto, que descobriu o tesouro e me deu notícia dele, e eu. Foi nos livros de Pedro Sanches que li, por exemplo, o teatro de Ésquilo, na tradução francesa arcaizante de Leconte de Lisle, e os quatro volumes da História do povo de Israel, de Ernest Renan. Boa parte dos volumes tinha belas encadernações, trazendo na lombada as iniciais Dr. P S L.”

A figura de Pedro Sanches tornou-se ainda emblemática para a pesquisa também no que se refere à imputação de cientificidade das águas contra os modos antigos de uso. Filho dileto desse tempo de higiene, ciência e civilização, colaborou decisivamente, portanto, para a desvalorização da mentalidade mágica e religiosa que, ainda a seu tempo, insistia em se fazer ali presente através de romarias, pagas de ex-votos e “superstições” das pessoas que, de origem variada, para lá afluíam em busca de cura.

Foi ele, portanto, o mais importante codificador da terapia científica das águas (a crenoterapia, que já teve cadeira fixa nas faculdades de medicina), definindo parâmetros de ingestão, banho, utensílios e técnicas balneoterápicas, dieta alimentícia, modernidade dos costumes públicos e privados. Nele, encontrei ainda contradições que me revelaram a história desse embate entre as duas modalidades terapêuticas através dos resquícios da mentalidade mágico-simpática em seus costumes íntimos e pessoais ligados à obsessão pela higiene do corpo."

Extraido da entrevista dada pelo antropólogo Stélio Marras à Comunidade Virtual de Antropologia, Entrevista (Edição nº 15) publicada no endereço: http://www.antropologia.com.br/entr/entr15.htm.