A saga de uma raça
Artigo A SAGA DE UMA RAÇA, escrito por Paulo Lot Calixto Lemos sobre a participação de familiares nossos no desenvolvimento do gado GIR no Brasil.
01-10-2001
Introdução
Convivemos hoje com leilões e feiras de gado de raça de alta genética, animais cujos preços são tidos, muitas vezes, como exorbitantes. Alta pressão de seleção, inseminação artificial, transferência de embriões, e mais recentemente clonagem de animais. Enfim, tecnologia e marketing evaporando por todos os poros...
Em termos tecnológicos, podemos dizer que nunca foi assim, porem em termos de marketing, preços, romantismo e paixão, nada se compara a “FEBRE do GIR”, que nosso país viveu nas idas décadas de 30 e 40.
Hoje gostaríamos de contar uma historia cujas passagens e fatos, envolvem gente nossa, de nossa região, e relata a saga de uma linhagem da raça gir. Um pedaço da historia do touro “Gaiolão”.
A Viagem
Nossa historia começa no ano de 1932, ocasião do retorno do senhor e sua esposa dona Mariana de Paula Lemos, da Índia, pais origem de todas as raças zebuínas. Após boas compras e uma feliz estadia naquele país retornam no navio, em cujos porões foram acomodadas dezenas de exemplares da raça gir, dentre estes varias matrizes prenhes e alguns tourinhos. Francisco Ravísio Lemos
Como não poderia deixar de ser, uma viagem longa e com uma carga como aquela exigiu cuidados especiais e muitos preparativos, como um bom estoque de alimentos e de água. Assim sendo, zarparam do porto de Bombaim com a capacidade de carga praticamente no limite.
Numa noite, depois de muitos dias em alto mar, depararam com uma terrível tormenta. Ondas gigantescas ameaçavam a embarcação. O “corre-corre” e a gritaria eram medonhos. Em sua cabine dona Mariana rezava. Nos porões Sr. Ravizio tentava acalmar os animais. Porem a tempestade não cedia... Até que num determinado momento o capitão do navio convocou toda tripulação e falou:
- Senhores, é imprescindível que esvaziemos a embarcação ou é certo que iremos a pique. Todos os animais, alimentos e sua água precisam ser atirados ao mar imediatamente. São eles ou somos nós todos...
Diante disso, senhor Ravizio realizou que tudo estava perdido. Não teve outra alternativa a não ser concordar.
Vendo toda aquela movimentação, dona Mariana correu aos porões, e para sua alegria verificou que uma bela novilha que havia criado um lindo bezerrinho poucas horas antes, ainda estava lá. Não pensou duas vezes, falou com o marido e correram até o capitão. Ela disse:
- Capitão, como bom cristão, e tenho certeza, como devotado pai de família, o senhor não poderia permitir uma maldade como esta, atirar a mãe e seu filhinho recém nascido para uma morte horrível como esta... Afinal, que diferença eles poderiam fazer quanto ao peso do navio?
Aquela argumentação desarmou o rígido capitão. Assim a novilha e seu filho batizado como Gaiolão chegaram sãos e salvos ao porto de Santos no inicio do ano de 1933.
O raçador Gaiolão
Os anos se passaram, a “aura” desta historia e suas qualidades raciais – para os padrões da época – envolveram o touro Gaiolão, que passou a ser considerado o melhor raçador Gir de seu tempo. Uma cobertura sua passou a valer dezenas de contos de réis, seu valor era talvez incalculável, mesmo assim havia sempre pessoas ávidas por compra-lo, o que aconteceu algumas vezes, sempre por valores suficientes para comprar fazendas ou milhares de bois gordos.
O ano do acontecimento da primeira grande exposição nacional da raça gir, concentrou todos os grandes “Zebuzeiros” do país em Uberaba/MG. A movimentação era intensa, o disse me disse e as apostas corriam soltas... Chegou o grande dia, dentre todos os grandes ia sair naquele dia o Grande Campeão da Raça Gir, fruto do primeiro julgamento realmente “oficial” da raça.
Finalmente, após todas preliminares e protocolos, o touro Gaiolão foi proclamado o grande campeão da raça gir de todos os tempos...
O “jeitinho” brasileiro
A algazarra era ensurdecedora, gritos e mais gritos de vivas, foguetório para todo lado. Gaiolão já estava sendo preparado para o grande desfile em carro aberto quando um dos juizes veio ao microfone comunicar que o julgamento estava cancelado por ordem judicial:
- Infelizmente, temos aqui uma ordem judicial cancelando o campeonato. Como se trata de uma feira estritamente nacional, o julgamento foi considerado ilegal, pois o touro Gaiolão não nasceu no Brasil!
Aquilo foi como um balde de água fria na cabeça de todos... O que fazer agora? A revolta começava a tomar corpo junto aos partidários do touro Gaiolão, que na ocasião pertencia ao senhor Nilo Jacintho Lemos , irmão de idealizador e primeiro presidente da nossa CASMIL, Pedro da Silva Lemos, e de seu cunhado, Dr. Julio Costa, casado com dona Honorina Lemos Costa, advogado por profissão e fazendeiro por vocação. Doutor Julio, pessoa ativa e de muita iniciativa, tomou logo a frente do problema. Localizou o juiz que determinara o cancelamento e datilografou ali mesmo um mandato de segurança alegando que Gaiolão era sim brasileiro! Pois apesar de haver nascido no mar, já se encontrava em águas brasileiras e em navio de bandeira brasileira! Portanto em território nacional... Diante desta argumentação o juiz se viu obrigado acatar o mandato e validar o julgamento. Afinal quem poderia afirmar o contrario??
Hoje a cabeça de Gaiolão se encontra embalsamada, exposta em um cômodo especial da casa de dona Honorina Lemos Costa, na cidade de Franca/SP